Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

terça-feira, abril 25, 2017

Canto, logo existo

Pois é, as aparências iludem.

Eu existo, mas não canto.
O canto que vos trago aqui não é canto de cantar, por exemplo uma canção com letra e música, embora seja fan de música.
Quero falar-vos de outros cantos, os cantos geográficos.
Hoje o canto geográfico de que dou conta tem uma localização neste canto maior, à beira mar plantado.
Passeando pelas ruas da baixa lisboeta com uma movimentação sempre crescente de turistas estrangeiros, resolvi afastar-me da Praça da Figueira e entrar no Martim Moniz.
Ia em direção a uma antiga tasca com a ideia de comer uma sopa e uma bifana quando, ao passar junto à Igreja da Nossa Senhora da Saúde, espreito para uma rua que já vi centenas de vezes, mas nunca me atrevi a lá entrar, rua do Capelão.
Era uma da tarde e disse para mim mesmo, porque não entras aqui nesta rua para ver este canto de lisboa, tão perto de ti e tão longe, por nunca te dares a oportunidade de o conhecer.
Entrei então na rua e fiquei logo agradado por sentir literalmente nas paredes dessa rua estreita, histórias de outros cantos, mais concretamente de nomes de fadistas, que confesso a minha ignorância, nunca ouvi.
Mas agradou-me, agradou-me ver nas paredes os nomes e rostos de quem contribuiu com a sua voz, para o engrandecimento de um dos maiores contributos de Portugal para a história cultural e musical, o Fado.
Como não era o fado que me movia mas a curiosidade de ver um canto diferente da cidade, e também a necessidade de aconchegar o estômago, avancei mais uns metros e vejo um restaurante com esplanada, com um grelhador cá fora disse para mim mesmo, hummm…aqui há gato.
Quer dizer, não havia gato mas havia peixe. Olhei para os pratos que estavam na mesa e vi em vários deles, pescadinha de rabo na boca com arroz de tomate e decidi logo que era aí que iria almoçar.
Para minha tristeza, já não havia esse prato, pelo que optei por uma dourada escalada servida com batatas cozidas e uma salada, qual dos 3 componentes com melhor aspeto.
E assim me vi de repente, num bairro típico de lisboa (Mouraria) a almoçar numa mesa para 6 pessoas, uma das quais sem me conhecer de lado nenhum, fez questão de me integrar de imediato nas conversas atuais e passadas das suas vidas lisboetas.
Adorei o almoço, o convívio e ter estado naquele canto com história e com histórias.
Lisboa transforma-se dia-a-dia. Sempre amei Lisboa, embora reconheça que muitas lisboas que conheci, hoje já não existem. As cidades são assim e as grandes cidades são assim, sempre a transformar-se, a modernizar-se, a readaptar-se constantemente a um mundo envolvente, que também ele está em constante mutação.
Gostei de conhecer este canto. Conheci um canto que eu não sabia mas que existe.
Canto, logo existo.   

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