Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Catraio de quase 10 anos – Da origem ao destino

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Construção

O Catraio atualmente não dispõe de alma nem de condições físicas para sentir a agitação das águas. A sua âncora encontra-se deformada; os seus cabos estão entrelaçados; as suas velas cheiram a mofo; as suas cores apresentam-se mortas. O barco não vislumbra horizonte porque está triste. O horizonte alcança-se com o contributo de todos os navegantes, munidos de força e saúde para se lançarem à aventura.

Ele aceita que por opção os seus marinheiros não se façam ao mar; mas rejeita que outros sejam forçados a ficar em terra. Não obstante, e dado que dentro de sete meses, precisamente no próximo dia 31 de julho, celebrar-se-á a primeira década após o lançamento oficial do Catraio à água, pode agora esboçar-se um balanço dos quase 10 anos de vida.

Durante o período – cerca dum ano – que esteve no estaleiro em gestação, houve a colaboração graciosa de mareantes de várias áreas. Uns provieram da marcenaria, da artesanal à moderna; os demais, para complementar os primeiros, e porque o intuito consistia em construir um barco que conjugasse tradição com inovação, vieram doutras bandas, inclusivamente da serralharia e da eletricidade.

Não se sabia exatamente qual seria o resultado final, pois dependeria da articulação do trabalho dos intervenientes. Apenas se estava ciente do almo desejo de levantar uma embarcação diferente das restantes; uma que pudesse sair das águas regulares, ou melhor, que pudesse desvendar também a sorte das marés mais turbulentas, onde os catraios normais não se arriscam a entrar. Esse desejo fecundo constituía o desiderato do marceneiro principal – e autor do projeto –, que tantas vezes laborou sozinho sob pena de o barco enraizar na doca seca.

Como sucede com qualquer embarcação, existe um limite físico para a capacidade de transporte e de carga. Nado e criado para não desistir, a peculiaridade do Catraio decorre do facto de viajar sem limites para o infinito das imagens dos seus tripulantes. O mar é imenso e sujeito ao imprevisível devir da navegação, pelo que não só na imensidão cabem todos os barcos que se imaginem, como sobretudo o mar merece ser valorizado com catraios de diferente jaez.

Logo ao início da construção do Catraio tinha-se a plena consciência que a identidade dele reside no empenho e no orgulho dos seus marujos. Desprovido de protagonismos de (co)mando e munido de antagonismos de trajetória, a sua esteira tem-se revelado assaz discreta. Sem porão majestoso nem gávea sumptuosa como noutras embarcações afamadas e porventura jactantes, orgulha-se em ter uma quilha que desbrava pensamentos, e em ostentar à proa uma flâmula que desfralda a insígnia da «liverdade».

Tripulação

O Catraio agrega a diversidade das decisões tomadas pelos seus marinheiros em pontos não programados do tempo e do espaço. Apesar de formalmente ter sido registado por cinco indivíduos – requisito exigido à generalidade dos barcos, para que disponham da necessária existência jurídica e assim poderem entrar no mar –, qualquer pessoa pode desfrutá-lo desde que o conserve e promova a sua missão.

Por isso ele não tem mestre. Legalmente impõe-se que haja um; não obstante, o posto de mestre é ocupado por cada mareante que se abalance a levantar a âncora, a desprender os cabos, a desfraldar as velas, a retocar a pintura com as cores da energia. Basta que saiba utilizar o leme com segurança – segurança do próprio, dos outros e, não menos importante, da embarcação.

Apesar de tamanha flexibilidade, o uso dado ao Catraio tem sido intermitente, consoante as tatuagens inscritas na alma dos navegadores. Nos primeiros anos da infância, ele mereceu a atenção de muita gente, tivesse ou não participado na sua construção, tal o arroubo de saborear a liberdade do horizonte. Porém, volvido o sentimento fugaz da novidade, vários marujos escolheram outros barcos para se dirigirem à chegada das suas ideias. Por justificável cansaço ou preocupante insatisfação, alguns terão voltado as costas às coordenadas que genuinamente haviam abraçado ao princípio e bandearam-se para diferentes paragens.

Conquanto neste catraio avantajado em boa-fé exista lotação para dezenas de pessoas, em cada percurso realizado o número de marinheiros não ultrapassa, por norma, a sua idade petiz. Metade deles costuma ser regular nas saídas realizadas, constituindo uma espécie de núcleo residente; a metade sobrante vai mudando consoante as trajetórias selecionadas. O que praticamente nada muda é o número total de presenças.

Se se pretendesse substituir a água por terra, a embarcação poderia transformar-se numa carrinha de nove lugares. Mesmo surgindo um ou dois passageiros à última hora e excedendo por isso a lotação constante do livrete, não faltaria espaço para acomodar todos os viajantes. Todavia, para fazer jus à motivação inicial que o barco recolheu de muitos, o seu fado não poderá quedar-se amarrado a um cais a flutuar ao bel-prazer das marés. Enquanto houver mar os trajetos não se fazem por terra, e enquanto existir (nem que seja) um mareante não faltará Catraio.

Rotas

Por o Catraio ser polivalente e comunitário, não admira que cada marujo trace o rumo mais aprazível e assuma os riscos inerentes. Uns preferem zarpar de dia, outros de noite; uns para norte, outros para sul; uns sozinhos, outros acompanhados. Eis porque, com percursos plus ultra face ao seu habitat natural, a embarcação tem sido mais versátil do que se imaginara.

Começou por fazer abordagens à orla das águas salobras, em regra serenas, do seu ambiente típico, o Mar da Palha, mas depressa conheceu quer o recôndito das águas doces, quer o âmago das águas salgadas, consoante os interesses dos seus tripulantes. Como a viagem à cabotagem manifesta-se arriscada, apesar de mais visível, é frequente navegar-se em mar alto, por não ser tão perigoso. Argumento aparentemente paradoxal, há que reconhecer.

Porém não tanto assim porque para alguns marinheiros a autenticidade reside nas rotas que não dominam, pois entendem que desse modo é menos provável deixarem-se enganar pelos vícios da navegação de rotina criados involuntariamente. Por conseguinte, existem aqueles que, com o receio de se enganarem, exploram os mares que teoricamente dominam; e não rareiam outros que, para não falharem demasiado, afrontam conscientemente as profundezas desconhecidas.

Em parte pela multiplicidade de técnicas de navegação, o barco já conta com relatos invulgares: desde os episódios onde, por aspirações de os passageiros obstinados levarem o Catraio para poljes inundados, o casco ficou encalhado nas copas de árvores depois de as águas desaparecerem; até aos momentos em que, por erros de inscrição dos portulanos ou de manuseamento dos nónios, os viajantes desenvoltos colocaram marcos geodésicos no meio do oceano.

Embora haja vencedores e vencidos quanto aos resultados alcançados, deuses e catão procuram sintonizar-se. Independentemente da eficácia ou da eficiência das viagens realizadas, não há caminhos perdidos. Os rumos revelam-se sempre férteis e refletem a fidelidade que os mareantes lhes depositaram. Apesar de ainda imberbe, a embarcação acumula muitas experiências, o que torna possível catapultá-la para o sonho alado de navegar sem tocar nas ondas.

Dispõe duma razoável base de rotas, sejam saídas atribuladas a ideias que os pertinazes marinheiros queiram seguir, sejam explorações de ignotos argonautas em alto-mar adentro que faz do barco uma realidade acrescidamente arrojada e sagaz. Acolhe todos os percursos e dispensa a pompa de anúncios prévios ou de newsletters publicitárias. Faculdades que lhe permitem que literalmente singre para o destino que cada tripulante almeje ou que o núcleo residente anseie. Não há trajetórias boas ou más; todas constituem o perene destino da embarcação de (menos de) 10 anos. Com força e saúde para os seus mareantes não faltará ânimo ao Catraio para cortar os ventos e as marés.

(#) Imagem extraída do documento «quizz de barcos | ENTRE PONTES», publicado pelo Ecomuseu Municipal do Seixal