Fórum de Reflexão Económica e Social

«Se não interviermos e desistirmos, falhamos»

quarta-feira, novembro 25, 2015

Os burros e as opiniões

 

Enquanto o conhecimento funda-se em factos inequívocos, a opinião alimenta-se de estados anímicos. O conhecimento reveste caráter lógico ou objetivo; ao invés, a opinião comporta jaez emotivo ou subjetivo. Daí decorre que só os burros não mudam de opinião, porquanto a mudança de opinião é inerente ao Homem livre e despido de preconceitos, mudança que depende da perceção da realidade ou da vontade de a alterar.

O campo político deve ser um excelente exemplo para as escolhas mutantes, por parte tanto dos agentes decisores como dos cidadãos eleitores. A circunstância de uma pessoa depositar o seu voto num determinado partido não significa que ela se reveja integral ou mesmo maioritariamente nesse partido. Existiram muitos indivíduos que votaram por exemplo no Bloco de Esquerda ou na coligação entre o Partido Comunista Português e o Partido Ecologista “Os Verdes” e todavia não são radicais quanto à desvinculação da NATO, da União Europeia ou do Euro, nem defendem a nacionalização da banca.

Inúmeros portugueses optaram por depositar confiança nos bloquistas ou na coligação entre comunistas e ecologistas não pelo alinhamento a posições tendencialmente leoninas mas pela concordância com ideias exequíveis que favorecem a coesão social. O atual Governo socialista – apoiado pelas forças à sua esquerda – constitui um ótimo desafio para promover e adotar, dum modo diferente e inovador, medidas que compatibilizem os princípios da eficiência e da equidade que qualquer política deve incorporar.

As forças da ala parlamentar à esquerda dos socialistas têm de aproveitar o momento – concedido pela azia do Presidente da República, sumidade que, a contragosto, acabou por (ter de) mudar de opinião – para provar que afinal é possível adicionar à política lusitana um agradável (rectius: o desejado) condimento harmonioso, o qual tem estado sistematicamente arredado do hemiciclo. O condimento não advém de convicções extremistas e fraturantes da sociedade portuguesa mas sim de opções orientadas pelos critérios do equilíbrio e da sensatez que o grosso dos portugueses, implícita ou explicitamente, assume e advoga.

Se este Governo não dilapidar a confiança externa, honrando os compromissos internacionais firmados pela Nação, e no domínio interno impuser sinais assertivos e típicos duma trajetória que coadune competitividade com justiça social, então será provavelmente o melhor executivo – ou, sem exagero, um dos mais saudosos, se se preferir – da III República. A afirmação nacional e a consolidação democrática atingem-se (também) com políticas simples e eficazes.

Uma das políticas, patrocinada sobretudo pelos partidos da esquerda vincada, passa por elevar ao plano supranacional a problemática da insustentabilidade da dívida externa, de que Portugal é um dos países com doença crónica. A decisão de ultrapassar tal problemática somente com a prata da casa, nomeadamente nos termos explicitados no post «Zerar para ressuscitar e criar oportunidades sustentáveis», publicado em 19/01/2014, recolherá a oposição de pelo menos 99,99% dos cidadãos. (Preocupante unanimidade, registe-se.)

Outras políticas passam por singrar, de uma vez por todas, a figura da criminalização do enriquecimento injustificado – ainda que esta figura não esteja alinhada com os ângulos naturais ou adaptados do Partido Socialista, do Partido Social Democrata e do Centro Democrático Social –; e por alocar mais equitativamente os custos da (continuada e inevitável) austeridade, de modo o articulá-la o melhor possível com a dignidade individual das pessoas financeiramente mais vulneráveis. Como se constata, trata-se de políticas que nada prejudicam a despesa pública.

As democracias crescem e desenvolvem-se com a mudança racional de opiniões por parte da classe política e do eleitorado. As verdadeiras democracias são exigentes, exigência apenas alcançada pela reformulação de pontos de vista em nome do bem comum, ou seja, em prol da maioria de que o País é composto. Depositar a cruz sempre num determinado símbolo causa vícios, nefastos desde logo à própria democracia. Os cidadãos (independentes dos partidos) que votam sistematicamente da mesma maneira, assim como os decisores incapazes de se desinçar das ideias desligadas do tempo real, revelam sinais de coerência ou de burrice?

Por um partido não conseguir vingar a sua opinião em certos domínios não significa que adultere a matriz ideológica que o conota; significa antes que coloca na dianteira os interesses da Nação. Em função das opções e das concertações tomadas, ver-se-á quais os partidos, ou melhor, quais os políticos e os eleitores, do poder ou da oposição, que (des)carregam características jumentas.